Como a pequena Finlândia agrícola se tornou potência industrial?

Como a Finlândia, pequena, rural, periférica e de renda média-baixa, tornou-se potência industrial e gerou uma empresa de alta tecnologia como a Nokia? Incrivelmente, o fator mais determinante parece ter sido a necessidade de PAGAR reparações de Guerra à URSS!

De acordo com o Tratado de Paz, a Finlândia deveria pagar reparações de Guerra à URSS na forma de bens, e não em dinheiro. O exemplo da Alemanha pós-Tratado de Versalhes, cujas indenizações ajudaram a causar a hiperinflação e a escalada autoritária subsequente, foi determinante. O governo finlandês financiou totalmente a indústria nacional para que o Tratado fosse cumprido.

Naquela época, os setores em que a Finlândia tinha mais competitividade eram os de madeira e papel, mas a URSS exigiu também outros produtos + complexos como navios e maquinários. Um dos mais exigidos foi o de cabos, cuja produção anual finlandesa era de 200 km. A URSS demandou 375 km de cabos de energia, 200 km de outros cabos e 4.250 t de fios de cobre.

O principal fabricante destes cabos e fios era a Finnish Cable Works, antecessora da Nokia. Extintas as obrigações em 1952, a empresa havia atingido escala e conquistado um acesso privilegiado ao mercado da URSS, grande consumidora de cabos e fios para sua indústria pesada.

O sucesso levou à diversificação em 1960, com a criação do Departamento de Eletrônicos. Em 1962, o Departamento de Eletrônicos desenvolveria um protótipo de telefone sem fio a pedido do Exército Finlandês e depois vendido aos Correios. A produção seria alavancada de vez com a demanda soviética e a implantação do sistema nacional de telefones públicos nos anos 70.

Durante longos anos, este Departamento foi o menos relevante e lucrativo da Nokia, que também produzia papel, borracha e cabos. A empresa teve visão e ambição, venceu resistências internas que advogavam pelo fechamento da divisão e, com o apoio do Governo, atingiu outro patamar.

A Nokia incorporaria as duas concorrentes finlandesas: a Salora, especializada em televisores e eletrônicos de consumo, e a estatal Televa, especializada em sistemas de telefonia. O limitado mercado finlandês dificilmente geraria escala para mais de uma campeã nacional neste setor. Foi a estatal Televa que desenvolveu a tecnologia que se tornaria determinante para a ascensão posterior da Nokia: o sistema de comutação digital DX200, ideal para o padrão GSM que seria implementado nos anos 90, dando a ela a vantagem de ser “first mover” em telefonia móvel.

A URSS acabou indiretamente “forçando” a implementação de uma sólida política industrial na vizinha. Como a Finlândia não podia descumprir o Tratado, sob pena de ser invadida pela URSS, Governo e empresas não tinham outra opção a não ser cooperarem pela industrialização do país.

Outro caso de corporação nascida a partir da rápida e eficaz industrialização da Finlândia é a Metso, fabricante de sistemas para britagem e processamento de materiais rochosos.

Tudo começou com britadores, que são equipamentos para triturar rocha natural em formas menores, homogêneas e úteis para uma variedade de aplicações (concreto para construções, asfalto de pavimentações, contenção de encostas, estabilização de solos etc).

Mas depois de dominar a especialização em britadores de cone, impacto e mandíbula, a Metso passou a investir na pesquisa do britador móvel, possibilitando ao mercado mundial de agregados pétreos uma solução inovadora que depois foi copiada por toda a indústria. A especialização tecnológica se tornava o nascedouro de novas tecnologias.

Hoje, dona de um portfólio de tecnologias próprias que vão de modelos de britador fixo e móvel a peneiras vibratórias e sistemas de transporte de granéis, a Metso virou uma Universidade Produtiva. Ela é capaz de criar soluções integrais para o setor de mineração de pétreos, altamente customizadas, e este pacote integral de serviços técnicos carrega a venda de suas tecnologias industriais. Assim, esta corporação finlandesa é hoje uma multi-indústria baseada em conhecimento e pesquisa aplicada.

Texto escrito com Felipe Augusto e Fausto Oliveira.

 

FONTE:
MONEY TIMES